Um Circo, um Palhaço, um Pipoqueiro, alguns amores, muitos porres. E uns textos complicados sem pé nem cabeça.

10.7.09

Por que dar um passo atrás

Eu prefiro pensar que tudo continua como antes. Não porque eu seja um otimista de mão cheia, mas sim porque antes era bem melhor do que agora. Eu ainda prefiro o velho eu, com dezesseis anos te esperando na varanda de casa, vendo você passar logo depois do almoço, voltando da escola. E prefiro ainda você daquele jeito menor, mais chata e impulsiva. E também não é porque talvez eu queira voltar no tempo e tentar consertar tudo o que fiz questão de estragar, mas porque volta e meia eu busco algum perdão ou coisa parecida pra tirar o peso das costas.


Às vezes eu me covenço de que é tarde demais, que eu deveria juntar meus cacos e seguir em frente. Mas eu não costumo fugir de briga, não. Pode ser que demore um bom tempo pra que eu tenha muita certeza de que nada vai ser como antes, mas eu não estou nem aí para o que os chavões dizem. Eu já me diverti tanto por aí que estou andando em círculos outra vez e isso me cansa. Parece que eu sempre saio ganhando, sou o primeiro a pegar as coisas e cair fora, batendo no peito e cantando vitória. Mas quando eu mal olho para trás vejo que quem perde sempre sou eu mesmo, porque elas se fortalecem e aprendem com as canalhices que ficam. E agora tudo o que eu quero é passar uma borracha em tudo.

31.5.09

Errei, confesso.

Fazer escolhas nunca foi o meu forte. Só Deus sabe o quanto eu me transformo nestas horas. E eu não estou falando da indecisão, da dúvida por optar por isso ou aquilo, mas sim de apenas não querer escolher. Talvez seja só uma forma de me acovardar e fugir das responsabilidades. Talvez um pouco mais do que isso. Talvez seja o meu lado egoísta falando mais alto, mostrando toda a minha capacidade de não dar o braço a torcer e colaborar. Meu pai diz que eu escolho sempre os problemas menores pra tentar resolver das maneiras mais dolorosas e impossíves, e acho até que ele tem razão.

Frequentemente tenho me perguntado em que momento da vida eu adquiri esse jeito de lidar com as coisas, mas não consigo encontrar nada muito convincente. E muitas vezes o que penso ser a resposta vai de encontro com aquilo que escolhi ser e também o que projetei. A verdade é que a vida me tirou do caminho e agora eu acho que é tudo culpa dela. Mas não é. O meu modo de ser ríspido e grosseiro não posso mais controlar. Outras vezes consigo ser amável ao extremo, e também até evitar este tipo de coisa. Mas o teimoso ranzinza que perdura tende a cada dia querer ser ele mesmo. E vai desde o modo como abordo as pessoas até a canalhice que vez ou outra me toma.

Eu não queria ser assim. E isso não é um ato de autoflagelação, pelo contrário. É só um jeito de tentar entender as coisas e refletir sobre os erros pontuais. E isso é algo que não faço há muito tempo. Eu deixei as coisas seguirem, e aqui estou, achando que a maioria das mulheres que me relaciono são apenas um pedaço suculento de carne e sem muito sentimento. E quando descubro que estou errado, já é tarde demais. Eu tenho que acreditar mais nas pessoas, e às vezes acho que elas não me transmitem confiança, mas acho que a grande questão é até que ponto estou disposto a ceder e pagar pra ver? Hoje, muito pouco. E eu tenho que correr se quiser mudar o curso da minha vida.

Ao menos tenho um pingo de consciência que estas coisas devem ser consertadas, e acho que já é um bom começo. Fico culpando outros por eu ter me transformado nisso, mas não, eu me criei assim e agora vou ter que mudar os canais pra tentar refazer tudo de outra forma. Eu só preciso de um bom motivo pra começar.

3.2.09

Por quem beber?

Desta vez eu tinha um motivo muito convincente pra encher a cara e dormir sem tomar banho. Eu poderia sair sozinho, sentar em um bar qualquer e beber até minha cabeça voltar ao normal. Não por causa da bebida, mas pra que as coisas ruins saíssem mesmo. Mas aí eu fico pensando onde isso vai me levar. E também qual o significado desta reação. E o que eu ganho no dia seguinte é uma bela ressaca, mais por ter cedido aos goles do que pelos efeitos do exagero.

Mas depois eu penso que deveria mesmo é ter bebido bastante, porque era assim que eu fazia antes. E dava certo. Era assim que eu fugia de mim mesmo, das coisas que eu não queria ter de encarar, e me culpar apenas por bebido e não por ter cedido. Daí eu ponho em cheque o tamanho do meu orgulho, e a minha teimosia em levar tudo do meu jeito e não escutar ninguém. As coisas só prestam se eu decidir que prestam, e é isso. Então tropeço nas minhas próprias pernas e tento não aceitar o que eu não consigo escolher. E descubro que ela não vale meus goles.

19.1.09

Despoupe-se

Dois mil e nove já começou, e eu não estou nem aí pra isso. Se todos se cumprimentam e fazem votos de um bom ano, cheio de glórias e esperança, tudo o que eu posso dizer é que 2008 se foi, e foi tarde. Não tenho vontade de olhar pra trás e pensar em aproveitar todas as coisas boas que me aconteceram e também aprender com aquilo que falhei. O que é importante na verdade é o ano inteiro que se tem pela frente, completamente em branco, sem planos disso ou daquilo. Nada de pegar a folhinha e marcar as datas "x" ou então quando serão os próximos feriados.

Talvez de um tempo pra cá esse tipo de coisa tenha perdido o seu valor. Não há o que lamentar ou se arrepender de não ter feito. O novo ano é apenas uma oportunidade como outra qualquer, onde as mesmas cagadas se repetirão por si só, sem mais nem menos. E não adianta tentar mudar.

Se antes o negócio era se precaver pra não se ferrar daqui há algum tempo, hoje digo que esse tempo deve ser amanhã, e nada além. Tem que ser um dia de cada vez, fazer agora pra colher agora. Porque tudo isso pode não durar, pode acabar amanhã mesmo e daí todo esse zêlo que você teve a vida toda descerá descarga abaixo. É isso. Um dia de cada vez. E eu sei bem o que isso têm significado.

11.12.08

I'm ok

too many fights and no turning back
endings later

now she says I’m ok
to her

and I'm the man she wants
beneath her bedsheets
when the winter comes

to make her beet juice
and meals while she's
out to work

to take her puppy for
a two corner walk
and let the fresh air join
his tiny lungs
and give him something to eat
or drink
or play with

and I'm ok
to her

just like no other man
could ever be

sex twice a day
nice cars to drive
fancy clothes and
bottles

no hard work
no putting up bosses
and tax collectors

and I'm ok
to her

all free of charge.

9.11.08

Extremidades conflitantes

Eu admiro pessoas com um alto poder de controle sobre si mesmo, a começar por tudo aquilo que é prejudicial à saúde ou qualquer coisa do gênero. Às vezes eu até sinto inveja. Como é que conseguem ser tão fiéis a seus princípios? Tem gente que não consegue comer carne, por exemplo. Daí eu pergunto: como? Confesso que já tentei controlar minha alimentação, comer algumas coisas mais saudáveis e que não me façam engordar, mas péra lá, tudo tem limites. Uma coisa é você comer aquilo o que gosta e sentir um puta prazer. Nestas horas eu não quero nem saber quantas calorias tem ou deixa de ter, o que me importa é a sensação que tenho depois de feito. Outra coisa é você sofrer a ponto de não comer, porque aquilo tem 600 calorias e vai te deixar mais “fortinho”.

Voltando ao “como é que conseguem ser tão fiéis a seus princípios?”, é aí que eu vejo o quanto eu sou prostituído e me convenço muito fácil de que estou sempre certo. A minha guerra é sempre comigo mesmo, do certo contra o errado, do justo contra o injusto e assim por diante.

A minha vida sempre foi levada ao extremo, desde pequeno. Se não é pra muito-muito, então é pra muito-pouco. Bebida demais, cigarro demais, comida demais, mulheres demais, economias demais, e tudo isto e mais um pouco também de menos. Eu consigo ficar um bom tempo sem beber de maneira efusiva, dando uns golinhos aqui ou ali. É até bom, eu sinto que minha personalidade se altera, fico “bonzinho” de repente. Mas daí quando resolvo partir pros goles, entro de cabeça e beber se torna sagrado nos finais de semana. Sobre o cigarro eu não quero comentar, decidi que não vou parar de fumar agora, e isso já é coragem demais também. Eu resolvi dar um tempo em relação às mulheres. Pode parecer prepotência demais, mas é verdade. Por mais que eu não goste de falar no assunto, tenho consciência das coisas que me acontecem quando eu menos espero e mereço. Portanto agora tento fazer por merecer, ficar quietinho no meu canto e tê-las de menos.

Talvez um dia, lá na frente, quando eu estiver beirando meus quarenta anos, eu aprenda o que é ter controle realmente sobre a minha vida. E também aprenda a dosar tudo, inclusive as palavras.

20.9.08

Uma questão de determinação

Eu não preciso de muito esforço pra lembrar o quanto eu sou um cara instável e muitas vezes contraditório. Mas já consegui entender que eu preciso viver com algum objetivo em mente, se não as coisas não fluem e eu sempre acho que não sirvo pra nada. E de vez em quando até tenho razão. Pode acontecer de eu simplesmente "morrer pela boca", porque falei demais ou falei antes do tempo, e me incomoda quando deixo escapar e ver que não vou conseguir cumprir o prometido.

Essa não é a primeira (e talvez não seja a última) vez que eu tento parar de fumar de verdade. Quando a cidade esquenta eu sinto uma falta de ar enorme, parece que fico sufocado e que mesmo com tudo aberto, tenho a impressão de estar preso em uma sala fechada. E isso me dá uma aflição dos infernos. Mas como tudo na vida tem dois lados, essa primeira semana de abstinência me trouxe um outro problema: intestino preso.

Putaquepariu!

O maldito cigarrinho que mata tanta gente é o melhor remédio pra digestão do mundo, e os fumantes não me deixam mentir. E agora eu comecei a entender porque tanta gente diz que engorda quando pára de fumar. Come, come, come e a comida não sai! Isso sem contar que pra quem fuma o tempo todo (felizmente conseguia manter a média de 5 ou 6 por dia) acaba sem ter o que fazer, então vai lá na geladeira ou no armário e belisca logo um treco pra comer.

Voltando ao meu problema, então eu tive a brilhante idéia de resolver isso na base da força: leite de magnésia. O frasco já estava fazendo aniversário no armário, mas pra alguma coisa um dia ele ia servir. Tomei meio copo.

Ok, cinco minutos depois parece que você tem algumas criaturas vivas dentro do estômago. Normal, até então eu já esperava algo semelhante. Mas aí eu fiquei achando que o resultado era imediato e pensei que não tinha funcionado. Corri até o supermercado e fiz um kit sobrevivência para libertar o intestino preso: aveia em flocos, uva passa, mel, granola, leite, laranja com casca, mamão e um danone daqueles com "bio flactobacblablabla".

Menos de trinta minutos depois, e é uma pena que o resultado não possa ser transmitido via internet.

Desculpem pela porquice (ou porquisse).

(Ainda vão colocar um recurso nos sites que vendem perfumes via web, garanto que vão aumentar as vendas.)

20.8.08

stop and start (come and go)

stop making
every move
stop shaking
trembling

stop the pointers
and anything else
in action

stop believing
pretending and
acting too

start thinking
how life could be
worthless if
you had an easy way
to handle things
you don’t need
anymore

it would have no meaning
as such as If they had
no sense of anything
at all (?)

3.8.08

Eu não quero mais

Alguma coisa aqui não faz mais sentido, camaradinha. E não é que eu não saiba dizer ou explicar. É que a instabilidade como tal não tem nome, endereço e muito menos telefone. É daquelas que não te faz procurar os lugares certos pra encaixar as idéias certas. Não provoca anseios, não provoca reações, revoluções e afins. Eu não tenho vontade de fazer mais nada que seja fenomenal, nada que encha os outros de orgulho e tão pouco vontade de me dar uma bela olhada e dizer que eu jamais seria capaz. E tudo o que eu preciso ser agora é um homem sem ambição, um bote corredeira abaixo rumo à queda livre.

Eu não quero ler sobre quem fez o quê e como, ou então ouvir qualquer som que me deixe legal e com sede de viver intensamente cada dia da vida. Eu não espero nada de ninguém. E espero que não esperem de mim. Porque eu não acredito em mais nada e em ninguém. Eu não acredito no poder da palavra, muito menos daqueles que já viveram mais do que eu. Chega de ilusões, de histórias fálicas e bem tramadas. Aos quintos todos aqueles que pregam este tipo de coisa. Aos quintos aqueles que desejam construir uma segregação, um clã e até mesmo pretendem ser uma espécie de lenda e conquistar seguidores.

Agora o que menos importa pra mim é a opinião dos outros, tanto quanto suas experiências mirabolantes e ensinamentos que a vida lhes trouxe. O que vale pra você, certamente não vale pra mim. Nós não estamos dentro de um mesmo barco, não temos alguém no comando. É cada um por si. Engana-se quem pensa o contrário.

Eu estou farto dos anseios, das glórias e do sucesso conquistado a cada vitória mentirosa que a vida nos oferece. Eu não quero mais.

28.6.08

De volta ao trem

Escrever tem ser tornado um processo difícil e tanto pra mim. Há dias, meses, e talvez anos que não consigo tocar em nada que me agrade, não consigo transformar nada em coisa alguma e também começar do zero e tentar chegar no que tange o que eu julgue "bom".

O tempo chega e a gente acha que vai polindo as características, os trejeitos e a forma de buscar a inspiração, mas acho que isso tudo não passa de um grande ponto de interrogação dentro da minha cabeça. Não há sequer uma fórmula, um macete que corte caminhos e faça a luz clarear a mente. Apenas situações incomuns, que me pegam de surpresa e me deixa inquieto, pensando "e agora, como é que eu faço pra deixar essa merda sair?". Uma coisa é certa, beber ajuda.

As mulheres ajudam em parte. Mas o amor nunca foi meu maior inspirador na hora de tentar escrever. Talvez a saudade, isso sim pode ser. A saudade (quando existe) é uma boa maneira de refrescar a memória, cantar, colocar no papel coisa alguma. Nada a ver com elas talvez, porque na maioria das vezes não escrevo para elas, mas sim por elas.

E só de poder tocar de novo naquilo que ainda não defini se é um texto, um conto, um romance ou apenas uma história sem começo e fim, apenas com um meio, já me põe de novo nos trilhos, joga carvão na fornalha e faz a locomotiva funcionar.

9.4.08

If you see her, say hello
(Blood On The Tracks - 1975)

If you see her, say hello, she might be in Tangier
She left here last early spring, is livin' there, I hear
Say for me that I'm all right though things get kind of slow
She might think that I've forgotten her, don't tell her it isn't so.

We had a falling-out, like lovers often will
And to think of how she left that night, it still brings me a chill
And though our separation, it pierced me to the heart
She still lives inside of me, we've never been apart.

If you get close to her, kiss her once for me
I always have respected her for busting out and gettin' free
Oh, whatever makes her happy, I won't stand in the way
Though the bitter taste still lingers on from the night I tried to make her stay.

I see a lot of people as I make the rounds
And I hear her name here and there as I go from town to town
And I've never gotten used to it, I've just learned to turn it off
Either I'm too sensitive or else I'm gettin' soft.

Sundown, yellow moon, I replay the past
I know every scene by heart, they all went by so fast
If she's passin' back this way, I'm not that hard to find
Tell her she can look me up if she's got the time.


Se houvesse outra maneira de explicar, com certeza eu não teria feito isso.

25.3.08

Estou afogando em um mar que me dá pé. Em um lugar onde bem sei o quanto preciso nadar pra escapar. Onde exatamente eu pretendia estar, e estou. Como uma pedra. Não posso flutuar nem nadar, afundo.
E por enquanto, com muito prazer, por bem se dizer.

Ao que estou fadado, me preparo. Encaro.
Não há muito o que eu possa mudar.
Nem agora e nem durante algum bom tempo.

Vamos lá, engolir um bocado de água não vai te fazer mal algum.

16.2.08

Aos meus, com carinho

Os livros da estante já não são mais os mesmos. Pegam poeira, e vez ou outra passo a mão por cima pra fingir que estão ali, sendo tocados praticamente que todos os dias. Eles mentem por si só, contam-me histórias das quais eu não gostaria de participar e tentam me trazer de volta a tudo o que um dia eu prometi ser. Continuam sendo os cúmplices da minha maior mentira. E sempre serão.

Agora eles dão lugar a outros que pouco importam se os cito ou não. Querem saber apenas de números, de blasfêmias que eu mesmo insisto em enganar somente a mim mesmo. E são meus, levam meu nome na contra capa, alguns até com dedicatórias e afins. Às vezes me derrubam, outras me erguem. Mas são meus.

Com isso entendo que quase tudo na vida pode ser substituído, aliás, praticamente tudo. Mas o restante que não se encaixa nestas definições são as coisas das quais nós devemos menos nos importar em perder, porque estarão aqui pra sempre. Sempre mesmo. É tudo aquilo que não precisamos passar a mão em cima pra tirar o pó, ou então abrir na página "x", e tentar reviver os fatos para o tempo voltar e trazer tudo de volta.

E tudo aquilo são as pessoas mais importantes que tenho. Que não precisam me dizer todos dias o quanto somos amigos e a falta que nos fazemos reciprocamente. Porque isso tudo fica nas entrelinhas, cria saudade e é fadada ao descarte assim que nos encontramos.

Obrigado por tudo. De verdade.

12.2.08

Todos são

As garrafas são lançadas ao mar, outra vez. Sonhos novos, velhos, e sonhos utópicos. As pessoas não se enchem disso, se enganam. Como todo começo de ano.

Para uns é o enorme desejo de aparecer, de ser visto, subir até as cabeças. Para outros, simplesmente a vontade de desaparecer no meio da roupa de cama que há dias não é trocada.

O tempo quente têm destas coisas, deixa as pessoas entediadas, enfadonhas. Faz com que se tornem mau humoradas, sem vontade pra te olhar no rosto e mostrar um sorriso de fachada. E o verão assume a culpa por todo esse desarranjo.

Por outro lado, os sonhos vêm à tona, na maioria das vezes grandes utopias formadas por descontetamentos sem razão. Que surgem somente quando nada se faz e nada se têm. Pois os outros, estes não precisam sonhar. Ficam vendo a TV pular por dias e dias.

E quando chove, as pessoas entediadas fecham a cara ainda mais. Porque esta seria a oportunidade de colocar os pés na rua, ver e ser visto. Descomprimir seus desejos, que outra vez digo, pura utopia. Daí alugam um filme cult, porque é bem visto ser cult. Como também é bem visto ser enfadonho. E o que eles mais querem neste momento é que alguém pergunte "e aí, tudo bem?"

Na rua, respiram como se estivessem acabado de ganhar um novo pulmão. Andam depressa, e pouco olham para frente ou para os lados. Eles têm pressa, estão atrasados para alguma coisa que esperam que pensem ser muito importante. Mas é?

Um a um, importantes para si mesmo. Eles são você, eu e aquela pessoa que passa na calçada. É só olhar pela janela.

15.1.08

Boa noite, meu "blog".

Eu não consigo dormir, e tenho sono. Sento a cabeça no travesseiro, cruzo as mãos sobre o peito e fecho os olhos, mas não durmo. Torno a ligar a TV e passo os canais sem ao menos prestar atenção, de repente paro em alguma coisa.

Penso em coisas, números, pessoas e datas, nada adianta. Tenho sono e não durmo. Ponho-me de pé meia hora mais cedo, todos os dias, porque não consigo mais ficar deitado. Fumo um cigarro, tomo um banho que seria pra afastar o sono, e vou trabalhar. Meia hora mais cedo.

O dia não voa, não passa. O tempo custa a andar e parece não render. Todo mundo vai embora, e eu estou lá, sentado na frente do computador como se ainda faltasse muita coisa pra terminar. E não sinto o cansaço.

Volto pra casa pensando em deitar, tentar dormir e ver se engato no sono mesmo sem ter vontade. Não adianta. Começo tudo outra vez, chá, cigarro, TV e os olhos fechados sem dormir.

Não quero ler, não quero entender, não quero nada.

Só dormir. Uma noite!

22.11.07

I swear

good sense in these days is a kind of art
she said and came back to bed
not that bad
I suposed

when I rubbed my nails against the wall
was like my love for her
and could not be worse
at time
then she moved her head positively
I swear

Dali had no good sense when played
with clocks and sea waves
neither the lumberjacks had
when they built this poor bed

kind of art?
what the hell...

21.11.07

the selfish man in me

I'm hunting me
around
I'm putting me
on the ground
I'm losing me
beyond

I'm surrounded by myself.

9.11.07

today I’m not okay

I don’t believe in my dreams
any longer
they tell me exactly
the things
I’d like to hear
and some more

pretty hard
to solve this
and face as a karma

I'm on my own again

it’s just friday night
where are them all?
dancing? dating?
having fun?
great
I’m locked inside my room
standing
as every friday nights
in the last four months

I hope they’re not
drinking
writing
or doing anything
like that

cause today I’m not okay

16.9.07

o cigarro
que eu não trago mais
queima minha mão esquerda

mostra que o tempo
pra mim
veio

sacia-me de falta de ar
o que há tempos atrás
enchia meu prato
o cigarro

de comida
eu já ando bem

7.8.07

time

time
what a great partner

honored with his own merits
sets me apart of mistakes
and drops me back to lucidity
every day

time
the fairest enemy

never so loyal
convinces me to forget the rules
every way

time
might never grab you good stuffs
but always blows the bad ones away

this just the time

you don't see
touch
or choose

1.7.07

2:44

Às vezes eu me arrependo pelo trago da madrugada.
Às vezes eu me arrependo pela pizza fria, às 2:44 da manhã.
Às vezes eu me arrependo por pedir amor, e ter sexo.
Mas nunca me arrependo de pedir por sexo, e conseguir amor.

6.6.07

O Contador de histórias

Nunca fui muito bom nisso, descrever acontecimentos, eventos passados. Aventuras vividas... Até mesmo as piadas, perdiam o gracejo quando partiam da minha boca. Alguns diziam que eu tinha vocação para mentiroso. Contava histórias de terceiros, e sempre aumentava os números, apenas para tornar mais interessante o relato. Me divertia, mas acabei diminuindo a freqüência com que as contava, devido a falta de credibilidade com aqueles que ainda as ouviam.
O certo é que histórias minhas mesmo, nunca soube contar. Não sabia descrever bem o cenário, as emoções envolvidas naquele momento. Faltavam bons adjetivos... Só que de uns tempos pra ca, tenho me preocupado com isso, (maluquices de quem vai chegando a idade), de que essa minha deficiência faça com que tudo que já vivenciei fique apenas em minha memória, perdida... E por sorte, algumas dessas tantas aventuras ficaram marcadas em muitos que as vivenciaram junto a mim. Registros em fotos, ou até mesmo num guardanapo de hotel, que por último recurso usei para escrever o que se passava naquela hora.
Já seria possível montar bons capítulos de uma bela biografia...
Deixo isso pra quem entende, e fez parte das noitadas.
Mas tem muito ainda por vir. Linhas intermináveis, e um texto ora simples, e outrora sem sentido algum.

Que só quem escreve é que vai entender !!!

22.5.07

Faber Castell

Eu já tinha presenciado belas paisagens, lugares inesquecíveis, e desconfiava que lá seria uma boa oportunidade para apreciar bons momentos. Não foi diferente, de certa forma, surpreendente, pois as cores foram únicas. Difíceis de encontrar numa caixa de lápis de cor...
Anteriormente, em uma música, tinha ouvido os dizeres, azul da cor do mar, e me emocionei em vê-lo, num azul escuro, profundo. Contrastando com um azul celeste no céu, que por muitas vezes não era possível mirar uma só nuvem. A calmaria do mar transmitia paz, tranqüilidade, chegando a descansar o olhar ali por horas. Via a grandiosidade daquilo tudo e por isso agradecia pelo privilégio de poder desfrutar do mais lindo pôr do sol. Pôr do sol esse, que tinha o laranja intenso, mesclado a vermelhidão do horizonte, nesse momento, a imagem me transmitia calor. O reflexo no espelho d’água ofuscava a visão, cobria os raios mais fortes, só pra poder ver aqueles poucos minutos que restavam do descansar do sol, que deixava o céu para dar lugar à lua e às estrelas. A noite era mais bucólica, mas não menos bela. Lua cheia, ou nova... Clareavam a escuridão plena, mostrando o balançar das ondas, que rebatia a brisa do mar, um vento sereno, que uivava nos ouvidos.
Estou mais longe do que nunca estive, isolado. A saudade por muitas vezes é grande, porém desses prazeres por mim vividos, jamais poderão ser tomados. E são deles, que carrego minha bateria e sossego pro meu coração.
Belo. Como és...

19.5.07

Quase um quarto de século, o alicerce já construído, mas ainda falta o florescer das rosas no jardim...

É tempo demais, a primeira etapa, que no início não obriga muita responsabilidade, mas define ou pelo menos direciona para o caminho a seguir por toda a jornada. Experiências que moldam, formando o senso crítico, e a modo de encarar a vida. Relacionamentos, livros, hábitos... Fatores estes que influenciam no caráter de cada pessoa.
Ao olhar para trás, analisando tudo que já vivi, fico feliz e orgulhoso por ter conquistado meu espaço. São experiências, que por muitas vezes não são prazerosas, porém de alguma modo vem acrescentar algo de bom.
Apesar de tudo, o saldo é positivo, ao meu modo de ver. Porém, tem algo que sempre vem a incomodar, inquietar-me, que por esses anos todos, muita coisa eu já conheci, e muitos que tenho grande admiração, já com meus vinte e poucos anos, tinham encontrado seu caminho certo. A sua excelência em viver, para acrescentar algo na sociedade, seja ela expressada em arte, ou mesmo em um simples trabalho braçal. Fazendo aquilo que traga alegria em se fazer... Digo isso, não questionando o que faço atualmente, mas sabendo do potencial que tenho, e por admirar muitas maravilhas já desenvolvidas anteriormente.
Isso apenas gera uma ansiedade, ânsia em que esse momento chegue logo, que enquanto isso, a vida continua, sempre buscando fazer o melhor, e consumindo tudo que há de bom, feito pelos gênios que não precisaram aprender a ser inteligentes.

16.5.07

Eu, que caí de pé!

Eu paro e leio algumas coisas que estão escritas por aí. Hoje me identifico bem pouco com a maioria delas. Parece que são parte de um passado intenso, e que de intensidade teve apenas os acontecimentos, mas não o espaço de tempo. Eu já não me identifico mais com o dia seguinte, talvez por isso eu tenha feito tantas novas escolhas. Muitas delas julgáveis, mas com uma grande e consciente intenção de me livrar dos dias seguintes.

Esta foi a primeira vez que eu tive o prazer (ou desprazer) de me arriscar sem pensar no dia seguinte. E talvez o maior problema das minhas aventuras seja não medir as consequências em relação aos outros. Eu também passo por maus bocados, sinto-me sozinho e com vontade de desistir de tudo, mas até então estou fodendo apenas com a minha vida e este fardo eu carrego sozinho. Mas não consigo remediar o que acontece com as outras pessoas, não sei se é melhor tentar consertar, pedir desculpas e dizer que "estou arrependido", mas isso tudo talvez não resolva em exatamente nada.

Já tem muito tempo que não aprontava uma farra das boas, e essa fase não foi das melhores pra mim. Eu não estou tentando explicar nada, muito menos justificar algo. Só não quero que fiquem apontando o dedo e dizendo que agora sou o vilão. Dá vontade de afirmar com a cabeça que sou mesmo animal, de carne fraca e pitoresco, mas que morde o beiço toda vez que sente seus valores questionados.

Porra, eu só queria me divertir... e não importava como ou com quem!

22.4.07

Por um sentimento alheio

Eu quero acordar de manhã, com todo o cuidado pra não fazer com que você abra os olhos. Levantar ainda em silêncio, sem precisar me vestir porque dormi de roupa e sapatos outra vez. Sair pela porta da sala como um gato de foge por cima do muro, sem ninguém notar. Ir buscar seu café, pão de queijo, ou seja lá o que você goste. E não são nem sete da manhã ainda, mas a rua está cheia de idosos e pessoas que se julgam saudáveis, fazendo suas caminhadas matinais, como um outro domingo qualquer. Sou o único diferente entre eles, ainda com roupa de trabalho e cara de quem levantou no meio da noite porque a mulher teve vontade de comer geléia de framboesa no meio da madrugada. Faço isso com o maior prazer do mundo. E não porque terei algo em troca. Eu amo você. E isso é como jogar pedrinhas na sua janela do segundo andar. Até parece filme.

Faço tudo isso ainda com o pudor de quem respeita uma mulher comprometida, o que me deixa ainda mais doente por você. As pessoas não sabem, ou se sabem, fingem não entender. Como a gente. Como a gente que rachou um colchão (se é que dá pra chamar aquilo de colchão) em uma sala tão fria quanto a rua, sem cortina ou janela. Por isso acordei às seis e tanto da manhã, deitado no chão sujo, medindo cada mínimo espaço pra que você ficasse com a maior parte do colchão, enquanto te observava dormir e fingia que fazia o mesmo. Daí você dizia "está acordado?" e eu respondia com um gemido de quem já havia "apagado" à horas. Uma situação completamente aceitável, mesmo que no dia seguinta você me olhasse como se quisesse dizer "por que diabos faz isso?"

Trouxe seu café. E dos outros também. Mas todo mundo dormia ainda, era muito cedo pra cobrar alguma coisa deles em um domingo decente como aquele. Tudo o que eu queria fazer era ir pra casa e pensar a respeito. Talvez escrever, fumar, beber, não sei. Ou então me orgulhar de tamanha resistência. Pra você eu fui um fracote, e não escondo isso de ninguém que me questione a respeito. Você estava ali, do meu lado, pedindo pra que eu evitasse que o frio nos incomodasse, e o melhor que pude fazer foi evitar que o frio chegasse até você, apenas. Nada mais. O frio pra mim não faria a menor diferença, pois foi tudo o que eu consegui fazer naquele dia foi agir conforme o tempo: de maneira fria.

Amo você. Mesmo sabendo quem seja, afinal.

5.4.07

coisas temporariamente insuperáveis

Era um recado pra mim: ligar pra pessoa que me "carregou nas costas" na escola. Poxa, já até imaginei quem seria, não poderia haver outro alguém. Não que ela tenha me carregado nas costas, mas já pude imaginar de cara quem diria uma coisa destas. Tá, daí eu pego a porcaria do telefone e ligo. Quase três meses depois, eu e minha conversa chata e irônica de sempre.

- alô, boa tarde?!
- boa tarde... quem é?
- como quem é? a pessoa que "você carregou nas costas"...
- (risos)
- muito boa...
- e ai caipira, tá vivo ainda?
- claro, eu não tenho a intenção de morrer cedo...
- ai, lá vem você com o bom humor de sempre! tudo bem?
- bem...
- tá trabalhando lá ainda?
- ainda?
- (risos) é... não quis trabalhar comigo, deve estar insatisfeito aí, não é?
- (risos) pelo contrário...
- precisava falar com você!
- ah é? e sobre o quê?
- a gente vai voltar a estudar, certo?
- eu sim, e você?
- estou falando juntos...
- ah, claro... você ainda está com estas idéias? achei que fossem da boca pra fora... coisa do tipo "não vamos perder contato, ok?"...
- sério! vamos ou não?
- sim, sim... já estou quase lá!
- ah, mas me espera... agora não dá pra mim, tem que ser daqui há um tempo...
- (risos)
- sabe que ainda estou MUITO chateada com você, né?
- lá vem você... e por quê?
- por que amassou aquela folha que te dei...

Puts, isso foi no meio do ano passado... pedi pra ela copiar uma parte da matéria pra mim enquanto eu prestava atenção na explicação, daí ela volta com uma página inteira de garranchos. Ela tinha escrito tudo com a mão esquerda (e era destra). Só podia ser sacanagem, amassei na hora e joguei no lixo. Claro, eu tinha que ser educado assim. Depois vi a cara de dó que ela fez e peguei de volta, desamassei e coloquei no meio do caderno pra ver se voltava ao normal.

- nossa, você ainda lembra disso?
- nunca vou esquecer... fiquei louca com o que fez!
- calma... eu guardei a folha, nunca vou jogar fora...
- agora é tarde...
- como assim tarde? (seria melhor dizer "o que quer dizer com isso?")
- porque estou namorando!
- QUÊ??? (saiu sem querer...)
- shiu! não é pra fazer escândalo...
- tá...
- é, depois te conto melhor!
- e me ligou pra dizer isso?
- claro que não... mas me liga depois, daí a gente se fala.
- é, tem algumas coisas que você precisa escutar, mas não por telefone!
- uau! mas é tarde amorzinho... (risos)
- (risos) não seja tão humilde... não tem nada a ver com isso... (isso o quê?)
- tá, mas vê se me liga!
- não, não vou te ligar....
- por quê não?
- pra você dizer "me liga mais tarde?", não tô afim...
- (risos) tá....
- é, não vou ligar...
- beijos!
- beijos.

Porra, pra contar isso?
Conta pro travesseiro, ursinho de pelúcia, sei lá!
Eu nem lembrava mais do seu nome!
Eu acho...

3.4.07

bull shit

people say opportunities are unique
dad said that you have them as much as you need
but lost in a kaffegeschäft in munich
things don't work like that

the bartender doesn't know your name
or even where you come from
he is just worried about the money you'll give him
when the night is gone
and that is it

women
they think just the same
but for a job that bartenders can't do

and this is just one reason
to lie about myself:
god gave me ten chances to prove
that dad's theory is bull shit

16.3.07

stand by list: FULL

Eu sempre fui um cara cheio de planos, e por mais absurdos ou tangíveis que eles fossem, alguns sempre mantive em stand by porque me faltavam alguns pontos que pesassem em prol da realização deles. Mas hoje parece que essa lista que antes era pequena, já está quase a ponto de transbordar. Minha vida se resume em acordar cedo, ver um pouco de TV enquanto engulo alguma coisa antes de ir pro trabalho, e partir pra lá como se fosse um intervalo de quinze minutos após o término do dia anterior.

Se antes eu reclamava do tempo que a escola me tomava, achando que eu poderia usar esse tempo pra outras coisas mais importantes, agora eles ficam em vão esperando pra que eu mesmo encontre alguma coisa útil para preenchê-lo. E era fácil perceber que eu precisava mesmo desse tempo, e que era tudo o que eu pedia quando estava na escola ou então reclamando porque já era quase meia-noite e eu não tinha feito nada que me deixasse com a sensação de realizado. Por outro lado eu previa que não seria fácil me acostumar com a ociosidade, como não está sendo agora.

Eu já pensei em infinitas coisas, como curso de espanhol, inglês, academia, e até mesmo cursos genéricos pra ocupar meu tempo e mais do que isso, minha cabeça. Nunca pensei que fosse possível chegar nesse ponto, e talvez por isso eu precise tomar uma decisão o mais cedo possível. Mas que não seja em desespero, e sim algo sensato, que eu possa saciar duas vontades: a de não ter meu tempo vago e também ocupá-lo com algo que seja realmente interessante. E a maior barreira é que eu sempre tenho boas desculpas pra manter esses planos na listinha de stand by. O espanhol ou o inglês não dá porque já estamos na metade de março, e aí eu teria que pagar um semestre todo pra estudar três meses (fora a matrícula e o material). E aí entra outra coisa que me tira o sono: desperdiçar dinheiro. Fazer uma academia até que não seria de um todo ruim. Eu poderia conhecer pessoas novas, mulheres principalmente, e adquirir o hábito de me exercitar também faria com que eu me sentisse mais disposto durante o dia. Mas pra isso eu precisaria levar uma vida um pouco mais saudável. Eu não diria menos desleixada, porque já não bebo mais como antes, e isso já é um ponto a favor. A questão chave é deixar de fumar, que corre pela minha cabeça todos os dias. Todo cigarro eu me engano pensando em ser o último, e por isso talvez eu tenha ido dormir arrependido. Já disseram que é mais fácil deixar de fumar do que assumir que é um fumante assíduo. Conheço poucas pessoas que nunca disseram "ah, estou tentando parar" ou então "parei há três dias" ou "não fumo mais, só nos finais de semana". E essas palavras se tornam ainda mais massantes quando as ouço através da minha própria boca.

9.3.07

VELHOS Tempos

Era 9 de março de um ano que não vinha sendo muito bom. Eu me sentia sozinho o bastante pra me achar forte e ao mesmo tempo sozinho demais pra chorar e ninguém ver. Aliás os começos de ano pra mim sempre foram decadentes em excesso, ao contrário do final deles. Meu telefone toca no meio da madrugada e eu já levantei esperando pelo pior. Eu tinha que arrumar minhas coisas e viajar até o interior dentro de poucas horas. Meu avô tinha falecido.

Falar sobre ele é uma coisa que eu sempre tentei e nunca consegui, apesar de ter tentado inúmeras vezes. E naquele dia eu tinha perdido mais do que meu avô, eu tinha perdido um amigo. Ele era até então tudo o que eu tentaria ser pra minha famíia: a "cola" entre eles. Cinco anos antes eu e ele tínhamos perdido minha avó. Isso mesmo, EU e ELE. E depois daquele momento jurei que faria de tudo pra não deixá-lo sozinho. Juramos fidelidade, choramos e depois passamos a morar juntos. Eu cuidando dele, e ele mais ainda de mim. Eu tinha só quinze anos, e ele setenta e cinco. Mas éramos como velhos amigos.


Até que houve um dia em que eu tive que sair de casa, ou como ele dizia "sair pra tentar magoar o menor número de pessoas possível", o que foi muito difícil pra mim, embora soubesse o que ele estava fazendo. Então saí. Nós nunca perdemos contato, e sempre que podia ia até lá para vê-lo e passar grande parte do meu tempo livre ao lado dele.

Meu avô não era engraçado, louco e muito menos um velho alcóolatra que vivia me contando histórias sujas sobre sua adolescência idem. Ele era (e É) um dos seres humanos mais incríveis que já conheci, e às vezes eu me perguntava como fui parar ao lado de alguém tão especial. Talvez eu não o merecesse, talvez eu também não merecesse ter uma avó como a esposa dele, a mãe do meu pai. Mas tudo o que eu fiz naquele período entre a infância e a adolescência foi me dedicar para tê-los em minha vida o máximo de tempo possível.

Então nesse mesmo dia 9 de março eu fui até lá, pra me despedir "fisicamente" do velho. Pode ter isso a última vez que eu chorei por alguém até hoje, e o choro se tornava mais profundo ainda quando me lembrava do tempo em que moramos juntos. Foi quando aprendi verdadeiros valores morais, amadurecimento e sensatez sobre cada dificuldade que eu viria a encontrar pela frente, mesmo sem saber que um dia eu me pegaria com os mesmos costumes e pirraças dele. Enfim, que eu me tornaria um velho como ele.

Às vezes não consigo lembrar de muita coisa da minha infância, porque naqueles tempos de quinze anos eu já tinha muita coisa na cabeça. E confesso que antes de nos aproximarmos tanto, às vezes eu chorava pra minha mãe com medo de um dia envelhecer. Mas ali, ao lado dele, eu já quis ter idade o bastante pra conversarmos sobre as mesmas experiências e glórias. E acabei mudando completamente a minha maneira de encarar a velhice depois desses tempos.

Nesse mesmo dia, no enterro do meu avô, eu mal sabia que onze anos antes de sua morte, naquele mesmo 9 de março, Henry Charles Bukowski deixava nosso time pra jogar ao lado dos imortais. Toda aquele descarrego de sensações e sentimentos me deixaram cego para outro fato curioso: eu entrei no primeiro ônibus pra São Paulo, às exatas sete horas e quarenta minutos, no dia 9 de março, um ano antes da morte do meu avô.